sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O porquê da reincidência na mentira

O PT continua fiel ao manual do Dr. Joseph Goebbels, especialmente quanto à frase pela qual é mais lembrado, aquela da mentira que se torna verdade (minha tradução, meus grifos):
"Se você contar uma grande mentira, e a repetir continuamente, as pessoas eventualmente acreditarão nela. A mentira deverá ser mantida até o Estado poder blindar o povo das suas consequências políticas, econômicas ou militares. Assim, é vitalmente importante para o Estado usar todos os poderes e recursos disponíveis para coibir discordâncias, posto que a verdade é o inimigo mortal da mentira, e dessa forma, a verdade é o maior inimigo do Estado."

O pensamento acima me veio à memória depois de ler uma notícia, já velha, sobre um discurso da presidente Dilma em Bruxelas. A matéria é da revista Exame, grifos meus.
Dilma diz que país é capaz de enfrentar 'qualquer crise'
De acordo com ela, o mercado nacional foi fortalecido pelos programas sociais implementados no Brasil desde o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

A presidente Dilma Rousseff afirmou hoje que o mundo está preocupado com uma redução da atividade econômica que atinge os países desenvolvidos, mas que o Brasil hoje é capaz de enfrentar qualquer crise por causa do seu mercado interno.

De acordo com ela, o mercado nacional foi fortalecido pelos programas sociais implementados no País desde o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Somos capazes de enfrentar qualquer crise porque somos parte dessa nossa grande defesa que é o mercado interno.

Nós temos força para enfrentar essa crise porque fizemos política de distribuição de renda que melhorou não só eticamente o País, mas fez com que todo mundo tenha oportunidades e acesso a serviços de qualidade", afirmou a presidente, durante o lançamento do Programa Brasil sem Miséria na Região Norte, em Manaus.

Dilma destacou a ascensão de 40 milhões de brasileiros à classe média nos últimos oito anos e os planos do Brasil sem Miséria de proporcionar a mesma oportunidade para mais 16 milhões que ainda se encontram na faixa de pobreza extrema. "Nós estamos no caminho certo e o Brasil sem Miséria é também um programa de combate à crise. Nossa maior riqueza é os 190 milhões de brasileiros e brasileiras. E o que tirarmos da miséria estaremos contribuindo para o fortalecimento da nossa economia", afirmou. "Uma aspecto nos distingue e nos faz sermos respeitados no mundo: somos um dos países que faz política de distribuição de renda mais efetiva."

A presidente falou ainda sobre sua participação na abertura da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), na semana passada, em Nova York. Dilma afirmou que se sentiu duplamente orgulhosa, tanto por representar o País no organismo internacional quanto por ser a primeira mulher a abrir a assembleia. Relatou também a apreensão das nações em relação à crise econômica internacional. "Uma crise que arrasta uma parte expressiva dos países ricos e que tem uma característica perversa: é uma crise que desemprega milhões no mundo. Só na Europa existem 44 milhões de desempregados. O Brasil vive um momento diferente disso. Estamos com a menor taxa de desemprego da nossa história", disse.

Notaram as repetições? O que acham? Verdades? Mentiras? Enquanto o PT não aprovar a Lei da Mordaça no Congresso, eu serei voz discordante. Não vejo ascensão de milhões à classe média; vejo, pelo contrário, ascensão ao consumo e o consequente aumento brutal do endividamento e da inadimplência. É o endividamento que dá sustentação ao nosso mercado e a nossa economia. Somos uma bolha!

Lendo e relendo o texto acima eu vejo que ele veste como uma luva certas "cabeças pensantes" do PT. Não, não acredito que Dilma seja uma delas. Dilma está mais para boneco de ventríloquo — sua voz soa falsa quando discursa — mas há no PT muitas eminências pardas, gente como Zé Dirceu e Marco Aurélio. Lula também não. Lula é puro instinto — tornou público sua aversão aos livros —, não se iniciaria na leitura justamente por Goebbels.

É indiscutível que Lula consegue transformar todo púlpito num palanque, aqui ou em Bruxelas, mas alguém precisa dar conselhos à "presidenta". Será que ela está em condições de falar para qualquer plateia? Tudo bem se for em Gábrovo, na Bulgária, mas Bruxelas é um pouco demais para o caminhãozinho dela. Eu insisto: ela não convence quando fala.

Ainda assim, lembrando-me mais uma vez do Reichspropagandaleiter, quando sobrevier o fracasso espero que a petralhada faça uso dos mesmos tabletes de cianureto com os quais Goebbels — covardemente — pôs fim à vida da sua mulher, da dos seus seis filhos e a sua própria. Tenham todos uma boa morte.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Devagar com este andor

A coluna de anteontem do Celso Ming põe o dedo na ferida. Políticos e ambientalistas — via de regra — esgrimem soluções para a salvação do planeta sem conhecer bem os fatos, ou com apenas um conhecimento parcial deles. Vejam o texto abaixo (grifos meus), íntegra aqui.

Carro elétrico?

Muita coisa no Brasil reluz, mas não é ouro – especialmente quando se pretende resultado verde.

Uma dessas ideias reluzentes é a construção do carro elétrico, também chamado de carro verde, como se fosse instrumento ecologicamente correto – e nacional.


Quem pensa em carro elétrico pode imaginar que se trate sempre de uma máquina livre de poluição. E, no entanto, não é verdade que esse tipo de transporte não ejete gás carbônico na atmosfera. Pode até não emitir pelo escapamento, mas libera poluição pela chaminé, quando se produz a energia elétrica com a qual a bateria é carregada por meio da queima de derivados de petróleo ou de carvão.

Na matriz energética global (veja o gráfico) apenas 19% da eletricidade é gerada por fontes não poluidoras [biomassa, nuclear, hidrelétrica e outras], incluída aí a nuclear. E aqui no Brasil, onde as usinas térmicas estão sendo chamadas a aumentar sua participação no mercado em que, hoje, predominam os recursos hídricos, a intenção de substituir carros convencionais por movidos a energia elétrica também não faz sentido, sobretudo quando se buscam respostas ambientalmente corretas.

Se 30% da atual frota (de 30 milhões de unidades) fosse movida a energia elétrica de fonte hídrica, seriam necessárias nada menos que 13 usinas do tamanho da hidrelétrica de Itaipu para abastecê-la.

Essas considerações já deveriam ser suficientes para que o novo regime automotivo em elaboração no governo reveja a intenção de incentivar a produção de carros elétricos no Brasil.

Mas há outras. Uma delas tem a ver com a bateria que vai nesses veículos. O carro elétrico está sendo desenvolvido há mais de dez anos nos grandes centros produtores de veículos. No entanto, até agora, pouco progresso se obteve na obtenção de baterias eficientes. Seu peso enorme (em torno de 500 kg) compromete o desempenho do automóvel. E sua baixa autonomia complica o recarregamento. Há quem argumente que a recarga pode ser feita à noite, na garagem do proprietário. Mas não se pode esquecer de que uma operação dessas exigiria elevação da capacidade das instalações elétricas, principalmente nos edifícios de condomínio residencial.

[...]

Além do mais, não se pode ignorar o potencial do pré-sal. Nos próximos cinco anos, o Brasil se tornará grande exportador de petróleo e, potencialmente, de seus derivados. E é necessário saber se, em vez de um pacote de incentivos ao carro elétrico, não seria melhor estimular a fabricação de novos motores a gasolina e diesel, mais eficientes e menos nocivos.

Assim, no papel, tudo fica bonito. Vá lá, eu até me sujeitaria a andar com um "peso morto" de meia tonelada no meu carro elétrico se fosse para colaborar com o meio ambiente e evitar o efeito estufa, mesmo que para isso o País (isto é, nós) tenha que construir mais uma dúzia de Itaipus. Um problema, entretanto, o Ming se esqueceu de mencionar. Apesar de termos a energia elétrica mais barata do mundo na geração, ela é a mais cara do mundo (ou das mais caras) na distribuição, ou seja, quando do seu consumo; culpa da nossa maldita carga tributária e das "políticas públicas".

O governo brasileiro tem especial predileção em tributar itens de consumo essenciais, quase sempre aqueles providos pelo próprio Estado, por monopólios ou oligopólios. Basta verificar o quanto há de imposto em combustíveis; água, esgoto e saneamento; telefonia; bebidas, tabaco, correios e concessões de serviços públicos como transporte urbano. E sabe por que? Porque você não tem para onde fugir. É o clássico "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come."

Seja "comida indigesta": grite, esperneie! Nós precisamos nos rebelar contra esse esbulho oficial e há meios para isso. Aí, do lado direito desta página, na barra vertical, eu presto meu apoio a movimentos sérios que lutam pela melhoria do País. Um, é aquele pelo Voto Distrital, que vocês já conhecem. O outro, é o Movimento Brasil Eficiente que visa não apenas redução de tributos, mas também a aplicação criteriosa e parcimoniosa dos recursos arrecadados. Juntos, esses movimentos pretendem melhorar nossa representatividade e valorizar nossas contribuições. Eu os recomendo e avalizo!

É falta de decoro dizer a verdade?

A Folha noticiou que ele disse. Já o Estadão disse que ele disse mas que estava arrependido de ter dito. Afinal, qual é o preço dos deputados? Não vale sacar esse negócio de "quebra de decoro", desculpa das mais esfarrapadas. Deputado não tem decoro algum — isso é ponto pacífico —, nem se sabe ao certo para que servem.


Como os preços no Brasil estão livres, imagino que eles estejam fazendo cera para aumentá-lo. Ou é isso, ou como sugere o Nani, é promoção de fim de ano. Afinal, o recesso parlamentar vem aí e nossos representantes querem defender o peru de Natal.

Por um pouco de conservadorismo

Não faz assim tanto tempo, o Brasil tinha partidos conservadores, ou "de direita". Hoje, eles estão entre as espécies em extinção e isso não é bom. Na verdade é péssimo! Dentre a miríade de partidos que povoam a fauna política do Brasil, apenas dois se identificam, envergonhadamente, como conservadores: o PP (Partido Progressista, ex-PDS e ex-ARENA) e o DEM (Democratas, ex-PFL — Partido da Frente Liberal). Todos os demais se dizem "de esquerda", centro-esquerda ou de centro (e.g. o recém criado PSD — Partido Social Democrático, mais conhecido como o Partido do Kassab — PK —, uma agremiação de dissidentes do DEM e outros partidos. A nossa Política, assim distribuída, é animal coxo, isso se já não estiver irremediavelmente perneta.

A política nacional, já um ente pouco representativo da sociedade, consegue se tornar ainda menos representativa. Afinal, é lícito assumir que a sociedade tenha representantes de todas as alas, não apenas de "progressistas". Para ser bem honesto, a política nacional só tem representado a si mesma, especialmente (ou descaradamente) desde o advento da Era Lula. A meritocracia incipiente foi substituída pelo assistencialismo populista, os compromissos de Estado pelo discurso fácil e fátuo. Quanto ao povo, a maioria ignara comprou e pagou a farsa. Um artigo do Estadão retrata bem esse vácuo social. Grifos meus:

'PSDB precisa assumir-se como partido de centro-direita'
Estudiosa americana diz que a própria legenda fez essa escolha nos anos 90 e que retomá-la seria um bem ao debate político
GABRIEL MANZANO , ROLDÃO ARRUDA - O Estado de S.Paulo

No momento em que o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) expõe publicamente, via Twitter, a carência de um rumo claro para o seu PSDB, a professora americana Frances Hagopian, uma estudiosa dos partidos brasileiros, se arrisca a oferecer um norte aos tucanos: ocupar o espaço da centro-direita no espectro ideológico.

Hagopian não está sozinha. "Ela disse a verdade", endossou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao ser informado pelo Estado da entrevista concedida pela americana.

"Acredito que eles (os tucanos) podem se destacar nesse espaço de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso", afirma a professora da Universidade Harvard. "Precisam mostrar o que fizeram, ser fiéis a si mesmos", completa ela, referindo-se às transformações capitaneadas pela PSDB na gestão FHC (1995-2002)

A receita, no entanto, não é novo, avisa ela. "Na Inglaterra, Tony Blair levou os trabalhistas para o centro e deixou os conservadores sem chão. No Chile, a Concertación criou uma ampla agenda que confundiu os partidos."

Em São Paulo, onde participou com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de um debate no Centro Ruth Cardoso, ela falou ao Estado semana passada: "Por toda parte há muita insatisfação com a política, mas isso é parte do jogo. As coisas ficaram assim por causa da rapidez da globalização. Não temos um governo mundial, mas temos uma economia mundial, em que as soluções nacionais são lentas e ineficazes".

Há uma grande insatisfação, no Brasil, com os partidos e os políticos. O governo tem uma aliança de 14 partidos, manda demais, domina o Legislativo...

É a mesma queixa que se faz no Chile, em países da Europa, até nos Estados Unidos. Lá a Casa Branca envia uma reforma da saúde, ou leis para o meio ambiente, e elas ficam 18 meses, até mais, encalhadas. Isso de fato complica a democracia, pois os governos acabam não dando respostas a questões urgentes da sociedade. Mas acho que, no geral, a democracia amadureceu por aqui, está melhor do que há 20 anos. Os partidos, pelo menos os grandes, se fortaleceram. Refiro-me a dois ou três, os âncoras, com grandes bancadas e com presidenciáveis.

Um desses âncoras, o PSDB, vive um momento difícil. O PT incorporou as bandeiras da social-democracia e ele perdeu espaço, votos e o discurso. De que modo deveria reagir?

Nos anos 90, na Inglaterra, ocorreu o mesmo. Tony Blair levou o Partido Trabalhista para o centro e os conservadores ficaram sem chão - e isso durou 15 anos. Também no Chile se fez a Concertación e foi a mesma coisa. Isso é parte do jogo.

Mas aqui o PSDB precisa encontrar um rumo. De que modo?

O que a democracia social viveu aqui foi interessante. Por razões ideológicas, que eu entendi, o partido deu um primeiro passo à direita, para reformar o Estado. Perceberam que não dava para avançar em saúde ou educação com um Estado desestruturado, na bancarrota. Precisavam recuperar a solvência fiscal, vender as empresas de aço, depois outras, fazer uma reforma administrativa, a previdenciária. E veja, foi o PSDB que deu essa guinada para a centro-direita. Pois agora devia assumir o que fez, valorizar metas como os investimentos na infraestrutura, sanear o sistema fiscal. Acredito que eles podem destacar-se nesse espaço, de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso.

Mas uma guinada para a direita, por menor que seja, é política e eleitoralmente arriscada. No Brasil 'é proibido' ser de direita...

Não estou dizendo que um partido da social-democracia deva "se reinventar" como partido de direita. A coragem de que falo é para debater metas concretas, ousadas. Seria um bem para o País. O debate político aqui tem áreas de consenso, como melhorar a educação, que é tarefa urgente para se chegar à justiça social. Mas você pode ter um grande projeto, que inclua novas reformas, modernizar portos, atacar de fato toda a infraestrutura. Isso pode ser feito de diferentes maneiras, e uma delas é diminuindo o tamanho do Estado, para recuperar recursos e destiná-los, aí sim, às urgências sociais. Como se vê, estas são causas da social-democracia. Sei que isso nos leva a outra questão, que é a de definir o que é uma social-democracia em 2012. É um bom debate. Sabemos que ela é certamente diferente dos anos 90 ou dos anos 70. O País teria muito a ganhar abrindo essa discussão.

Como fica o PT nesse cenário?

O problema das esquerdas, como já se viu na Europa, sempre foi descobrir como se manter fiel às suas bases e moderar o discurso para ganhar eleições. O PT fez isso em 2002. No longo prazo, esse movimento para o centro pode matar sua identidade como partido de esquerda. Se isso se agravar, aparece outro partido de esquerda e lhe toma o lugar. A propósito, lembro-me de um artigo do Thomas Friedman, que veio ao Brasil e escreveu que Lula e FHC faziam uma dança do tipo nado sincronizado. E atribuiu essa dança à globalização.

Marina Silva tentou criar uma alternativa, em 2010, e chegou aos 20% do eleitorado. Há os indignados na Espanha e protestos de jovens por toda parte. Para a sra., o que isso representa?

Não acho que a crise seja no modelo político. Eu não ligaria os votos de Marina aos indignados da Espanha. Se há uma crise, é econômica, uma crise de globalização. Não temos um governo mundial, mas sim uma economia mundial. A economia muda mais rápido do que os governos conseguem regular. Pactos vão caindo e as pessoas se sentem inseguras. Mas não vejo como superar isso com políticas nacionais ou de partidos.

Enfim, a sra. acha que a insatisfação política no Brasil é apenas parte de uma crise maior?

Eu não acho que o Brasil esteja vivendo uma crise. Há diferenças de opinião, dentro da normalidade. E olhe que, hoje, a normalidade não é pouca coisa.

Optei por reproduzir todo o texto para não comprometer a ideia contida nele. Certas coisas que foram ditas, na minha modesta opinião, são verdades cabalares. Primeira, a de que o PT deu um passo em direção ao centro para viabilizar sua eleição.Pode-se dizer que foi uma prestidigitação sem a qual o partido de esquerda "batia na trave" mas nunca fazia o gol. A daqui se chamou "Carta ao Povo Brasileiro". Fizeram o mesmo no Peru para a campanha do Ollanta Humala, aliás, sob supervisão do petista Felipe Belisario Wermus, vulgo Luis Favre. Engraçado como militante esquerdista sempre tem mais de um nome... 

A segunda, foi o movimento à direita do PSDB, isto é, para viabilizar o atendimento "às urgências sociais", precisou-se "sanear" o país através de uma política conservadora. O efeito benéfico das privatizações foi eclipsado pela política de juros e de responsabilidade fiscal. O PT e demais partidos "progressistas" aproveitaram-se disso para satanizar a "direita", isto é, o PSDB e o PFL, logrando êxito. Estranhamente, nenhum político desses partidos (PSDB/PFL) manifestou-se em defesa dos próprios atos — FHC foi deixado à própria sorte. Ainda hoje, passados mais de oito anos, peessedebistas se envergonham daquele "passo à direita".

Isso é incompreensível para mim. Afinal, o país deu um salto qualitativo sem par em sua história. Alguém aí se lembra do quanto custava uma linha telefônica? O quão difícil era comprar uma, pagando-se por anos a fio e esperando mais um par de anos antes de poder contar com a linha. E os celulares? Chegou a comprar algum quando a operadora era uma estatal? Lembra-se de como eles quase nunca funcionavam porque eram poucas as antenas repetidoras? De quatro montadoras de veículos passamos a quatorze em poucos anos — aumentou-se a oferta e a competição; e muito mais.

Ainda hoje eu vejo pessoas criticando a privatização da Vale, para citar apenas a joia da coroa. Ela hoje paga de impostos, anualmente, mais do que o valor pelo qual foi privatizada. Os empregos saltaram de 13 mil para 41 mil (antes, mais "cabides" que empregos de fato), seu faturamento em 2009 foi de US$ 46,5 bilhões e seu valor atual de mercado é de US$ 160 bilhões. Pela Bolsa, a Vale que valia R$ 1,28 por ação ordinária e R$ 1,30 por ação preferencial, quando vendida, vale agora R$ 41,98 (ON) e R$ 38,79 (PNA), em plena época de baixa nas bolsas de todo o mundo. Mesmo descontando-se a inflação do período, obtém-se uma valorização real de 1.262,32% nas ON e de 1.139,44% nas PN. Estivesse ainda sob gestão governamental, ela jamais alcançaria tais níveis. Isso — para mim — é que é ser Progressista; o resto é firula e proselitismo barato.

sábado, 1 de outubro de 2011

A justiça se espinha

Na mesma linha do post anterior — O poder e o que ele faz às pessoas —, os togados do STF se espinharam quando a ministra corregedora Eliana Calmon disse que "há bandidos escondidos atrás da toga". Não sei porque. Primeiro, porque é verdade: há bandidos entre os togados. Segundo, porque não é um privilégio dos tribunais ter bandidos em suas hostes: eles (os bandidos) habitam todos os níveis dos mais diversos segmentos da sociedade. Assim, quando o meritíssimo ministro Cezar Peluso proferiu seu veemente discurso intimidatório contra a corregedora (ela não foi citada, mas todos sabiam quem era o alvo), tudo o que ele conseguiu foi chamar a atenção para os bandidos de toga. No jargão popular, vestiu a carapuça. Ah, vestiu sim!

Outro que tomou as dores da sacrossanta corporação foi o Celso Mello. É brilhante magistrado, mas vez por outra escorrega na própria empáfia; efeito colateral da exposição ao poder, acredito. E o maioral, o presidente da Associação dos Magistrados do Brasil, Henrique Calandra, que moveu a ação no Supremo para tirar os poderes do Conselho Nacional de Justiça. Juiz não gosta de cumprir a lei quando o efeito desta recai sobre ele, ah não.


Então, por que o judiciário não aplica para si aquilo que preconiza para os outros? Será que ele se considera assim tão melhor? Mais branco? Mais limpo? Pois não é! É apenas e tão somente uma das partes úteis da sociedade, uma engrenagem se quiser, mas só isso. Do judiciário — e especialmente dele que conhece a Lei intimamente — se espera o seu cumprimento e o respeito irrestrito da legislação. É agravante séria quando um homem da Lei usa este saber para burlar e distorcer seus efeitos, ação torpe e hedionda.

Pois bem, sabemos que isso ocorre. Tanto ocorre que Daniel Dantas proferiu a célebre frase "Só tenho medo da polícia e da primeira instância. Lá em cima eu resolvo." A tradução não pode ser outra: "quanto mais longa a toga, mais seguro o porto." Foi usando-as que Dantas, Dirceu, Sarney e até aquele juiz Lalau (prova viva que juiz come bola) se safaram. Onde está o processo contra a quadrilha dos mensaleiros? Quer saber? Está perto da prescrição, porque uma toga conveniente sentou-se em cima e de lá não saiu.


Pra terminar: os juízes de bem e sua Associação dos Magistrados do Brasil, deveriam enaltecer a existência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). É por se permitir ao escrutínio que a instituição se torna confiável e crível. Aproveito para retirar uma pequena parte do discurso que Sua Santidade o Papa Bento XVI proferiu ao Bundestag, no último dia 22:
A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Naturalmente um político procurará o sucesso, sem o qual não poderia jamais ter a possibilidade de uma ação política efetiva; mas o sucesso há de estar subordinado ao critério da justiça, à vontade de atuar o direito e à inteligência do direito. É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim a estrada à falsificação do direito, à destruição da justiça. «Se se põe de parte o direito, em que se distingue então o Estado de um grande bando de salteadores?» — sentenciou uma vez Santo Agostinho (De civitate Dei IV, 4, 1).
Íntegra do discurso aqui.
Bando de salteadores? Ui! Essa doeu...